Desde garoto nunca me interessei por motos. Nunca me atraíram ao ponto de sentir vontade de andar em uma e até me deixavam com medo. Talvez houvesse um misto de fascinação e medo. Nunca entendi a expressão “paixão sobre duas rodas”. Andar de bicicleta é muito bom e eu sempre gostei, mas nunca achei que pudesse se tornar uma “paixão sobre duas rodas”, e como sempre achei que andar de bicicleta e andar de moto fossem muito parecidos, por associação, também achava que, dizer que andar de moto era uma paixão, seria um pouco de exagero.
Em meados de 2002 eu fiquei sem carro. Não tinha dinheiro para comprar outro carro, morava longe, chegava em casa tarde da noite e o caminho da parada de ônibus até minha casa era longo e um pouco desencorajador. Então um dia eu estava em casa, assistindo televisão, quando vi uma propaganda que anunciava:
- CG 125, Titan, sem entrada, com prestações de R$ 192,00 mensais.
Pensei, aí está a solução. Eu nunca havia sentado nem na garupa de uma moto. Não gostava, tinha medo, mas como a necessidade é o maior estímulo para tudo, resolvi arriscar.
Entrei em uma auto-escola para tirar carteira de moto e, em paralelo, dei entrada no financiamento de uma CGzinha. A primeira vez que eu sentei em uma moto foi na auto-escola. Lá não aprendemos muita coisa. Aprendemos onde fica o freio, acelerador, câmbio, como trocar as marchas e, mal e parcamente, como se equilibrar em cima de uma moto. Não posso criticar a forma como são ensinados os futuros motociclistas, afinal não podemos colocar uma pessoa que não sabe andar de moto em pleno eixo monumental, com o instrutor na garupa orientando:
- Pode acelerar. Cuidado com o carro da frente que não está te vendo. Não pegue o corredor. Não entre embaixo desse caminhão porque não faz bem para a saúde. Cuidado com aaaaa.........
Então, infelizmente temos que aprender a pilotar em um quadrado de, sei lá, 1000m2, com um percurso desenhado onde temos que andar em linha reta, fazer um balão em forma de oito, fazer um ziguezague em volta de alguns cones e então passar, em linha reta, sobre um desnível de aproximadamente 20cm de largura por 5cm de altura.
Lembro-me bem que eu ia fazer minha prova da auto-escola em um sábado, porém fui buscar minha moto na concessionária na quarta-feira, três dias antes de fazer a prova. Fui para casa às 18h30min, sob uma chuva fina e quase morrendo de medo. Nunca tinha pegado a estrada de moto, apenas o pseudo circuito da auto-escola, e nunca havia engatado nem uma terceira marcha em uma moto, já que não havia espaço suficiente na auto-escola para isso.
Cheguei em casa vivo, ainda não sei bem como, mas cheguei. Os dias seguintes foram ainda piores. Ir e voltar para o trabalho, de moto, em horário de pico era quase um tormento. Aprender o controle de embreagem e não deixar a moto apagar na saída de um semáforo não foi muito fácil. Perder o medo de pilotar no trânsito não foi tão fácil. Porém em pouco tempo eu já dominava a arte de ser um “motoqueiro”. Estava mais para um motoqueiro que para um motociclista. Andava de moto por necessidade. Apenas para locomoção. Até que perdi o medo. Aprendi a andar de moto e me tornei, aos poucos, um motociclista.
Hoje eu já sei o que é andar com o vento no rosto. Sentir os músculos se contraírem enquanto o ronco do motor se torna mais alto quando aceleramos. Hoje eu sei o que é a liberdade ao sentir a velocidade sem nada ao meu redor, só o vento, o barulho do escapamento e o asfalto correndo rápido embaixo de mim. Poucos prazeres se comparam a sentir a adrenalina subindo tão rápido quanto a velocidade no velocímetro, 100, 120, 160, 200..... Seu corpo se retrai, seu coração parece querer correr ainda mais que você, seu cérebro se concentra praticamente inteiro na pista, no vento, nas calçadas, no sol e no ronco do motor. Você sente sua vida passando tão rápido quanto o asfalto abaixo dos seus pés, enquanto o tempo parece ter parado só para você. Você se sente voando baixo, você se sente voando sobre aquelas duas rodas. Hoje eu entendo a expressão “paixão sobre duas rodas”. Hoje eu poderia dizer que é uma paixão sobre duas asas. Asas que fazem o tempo parar, mesmo que por poucos segundos.
Além de ser extremamente prazeroso você andar livre, fugindo do trânsito, você anda mais concentrado sabendo que esse prazer também é perigoso por causa das outras pessoas que não respeitam e não andam tão concentradas como você. Essa concentração é prazerosa, faz você se sentir vivo. Faz se cérebro trabalhar mais. E agora está comprovado que pilotar moto faz bem para o cérebro e rejuvenesce.
Um estudo realizado pelo neurocientista japonês Ryuta Kawashima mostra que os pilotos de motocicletas se mantêm mais jovens que os motoristas de automóveis. A explicação para isso, segundo Kawashima, é que “pilotar uma moto requer alto nível de anteção”. “O cérebro e o corpo acabam relaxando em ambientes cômodos e com poucos desafios. Quem pilota motos envelhece com mais inteligência”. O estudo foi realizado com um grupo de homens que não dirigiam moto nos últimos 10 anos. Metade do grupo passou a andar de moto enquanto a outra metade continuou dirigindo carros. “Os voluntários que pilotaram motos tiveram melhores resultados nos testes de função cognitiva”, disse o neurocientista. No teste de recordar um conjunto de números de trás para frente, por exemplo, o grupo que pilotou motos foi 50% melhor.
Ou seja, andar de moto é perigoso, principalmente com o trânsito cada vez mais caótico das grandes cidades, porém é uma atividade extremamente prazerosa e que ainda por cima faz bem para a saúde.